Na África do Sul, etnia faz rito de passagem com circuncisão perigosa
Cirurgia é feita no meio do mato, sem as mínimas condições de higiene.
Nos últimos 15 anos, 200 jovens da etnia xhosa morreram.

Local onde são feitos os rituais de passagens da
etnia xhosa na Cidade do Cabo (Foto: Adilson
Barros/Globoesporte.com)
Os ritos de passagem da infância para a vida adulta fazem parte da tradição de muitos meninos, independentemente de raça, cor ou religião. Mas para os garotos xhosa, um dos maiores grupos étnicos sul-africanos, o ritual que os transforma em homens é doloroso, traumático e pode levar até a morte. O Globoesporte.com descobriu perto de Khayelitsha, a maior favela da Cidade do Cabo, um local isolado onde são montadas pequenas tendas que servem como local para circuncisão dos adolescentes.
A pequena cirurgia para extrair o prepúcio (pele que recobre a ponta do pênis), é comum e, muitas vezes, feita por motivos religiosos. Muçulmanos e judeus, principalmente, são circuncidados. O problema, no caso dos xhosa, é que a intervenção é feita dentro dessas tendas sem nenhum cuidado com a higiene. Os chefes, como os líderes religiosos são chamados, cortam o prepúcio do jovem com uma faca. O garoto fica dentro da tenda durante uma semana, sem tomar água (para que não precise urinar) e comendo apenas uma papa preparada no próprio acampamento.
O Globoesporte.com conversou com um xhosa. Ele tem 25 anos e passou pela experiência quando tinha 20. O rapaz explica que o curativo no pênis é feito com pele de bode. Durante sete dias, teve de ficar dentro dessa tenda, meditando. Além de não beber água e não se alimentar direito, ele também mal podia dormir, pois a bandagem era trocada a cada dez minutos durante o dia. À noite era de cinco em cinco minutos.
"A circuncisão é realmente dolorida, mas o que mais dói é a troca dos curativos", diz.

Tendas ficam em local isolado perto da maior favela da Cidade do Cabo (Foto: Adilson Barros/Globoesporte.com)
Após uma semana, o rapaz sai da tenda e pode começar a se alimentar e a beber água. Mas a alimentação também é controlada. Comidas estimulantes, como amendoim, são extremamente proibidas, pois uma ereção pode comprometer a cicatrização. Após essa primeira semana, o garoto segue no acampamento, mas dormindo ao relento. Ele só pode retornar à sua casa depois que a lesão no pênis está totalmente cicatrizada, o que pode levar de quatro a cinco semanas.
A cicatrização marca o fim do ritmo: enfim, o menino se tornam homem. Durante o período do retiro, o garoto só tem contato com o líder religioso e com familiares do sexo masculino. A presença das mulheres é proibida.
"Na nossa cultura, se o homem não passa por isso ele não é aceito. Ele cai em desgraça com sua família. E as mulheres não podem ir para o acampamento porque se acredita que elas possam fazer bruxaria", diz o xhosa.
As autoridades sanitárias da África do Sul demonstram preocupação com essa tradição. Isso porque os casos de mortes por causa de infecção no pênis são comuns. Nos últimos 15 anos, de acordo com dados oficiais, cerca de 200 garotos morreram, principalmente da área de Eastern Cape, na região leste do país. Além do risco de morte, os meninos também podem ficar com deformações nos órgãos genitais e até mesmo perder o pênis: no mesmo período, 90 garotos sofreram mutilação.

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