sábado, 5 de junho de 2010

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Rodrigo Santoro abraça estilo de vida gay.

Considerado polêmico para o circuito comercial americano, o filme “O Golpista do Ano” (bizarra tradução nacional de “I Love You Phillip Morris”) faz um caminho inusitado e, antes de chegar aos EUA, estreia nos cinemas brasileiros. No longa, Jim Carrey vive Steven Russel, um típico americano de classe média que, após um acidente de carro, decide assumir sua homossexualidade. “Isso mesmo, gay, gay, gay”, diz o personagem em narração em off. Só que para sustentar seus novos prazeres extravagantes, que incluem um novo guarda roupa, saunas e viagens pelo mundo, Steven decide virar um malandro e golpista.

Quando seus esquemas são desvendados pela policia, ele vai parar na cadeia. Lá conhece Phillip Morris (Ewan McGregor), dando início a uma história de amor que vai até as últimas consequências. Os diretores Glenn Ficarra e John Requa e o astro brasileiro Rodrigo Santoro, que interpreta a primeira paixão de Steven, falaram com a Pipoca Moderna durante a Mostra de Cinema de Sáo Paulo.

“O Golpista do Ano” teve pré-estreia nos festivais de Sundance e Cannes. Como foi a reação do público nesses festivais?

John Requa: No geral, foi muito boa. Em Cannes tivemos um problema porque, bem na hora que ia passar o filme para o júri e para a imprensa, o sindicato responsável pela luz elétrica do festival decidiu cortar a força. Coisas de sindicato… Pena que isso foi bem no meio da projeção. Quando a projeção terminou, achamos que eles não tinham comprado muito o filme. Mas depois fizemos uma sessão com o público e ele simplesmente adorou!

Rodrigo Santoro: A sessão em Sundance foi sensacional. Foi a primeira vez que vi o filme. Sala lotada, público de cinema, produtores e diretores na sala. Quando o filme terminou foi uma ovação imensa. Deu para perceber que o filme funcionava super bem.

Como surgiu a idéia do filme? Lendo o livro de Steve Mcvicker, “I Love You Phillip Morris: A True Story of Life, Love and Prison Breaks”?

John Requa: Nosso produtor nos deu 20 páginas do livro, antes de ser publicado, e logo pensei “Nós temos que fazer esse filme!”. No total, foram 4 anos para escrever o roteiro. Quando terminamos, nosso produtor nos disse “Nós poderíamos chamar o Jim Carrey para fazer o Steven.”

Glenn Ficarra: E dissemos “Você está louco!”

John Requa: Mas aí mandaram o roteiro na sexta e na segunda seguinte ele disse simplesmente “Sim”. (risos)

Jim Carrey aceitou o papel na hora?

John Requa: Na mesma hora. Sabe, Jim Carrey é um ator disposto a fazer coisas diferentes. Ele já conquistou sucesso, dinheiro e está querendo enfrentar novos desafios, fazer coisas interessantes. Acho que ele viu “O Golpista do Ano” como uma oportunidade de fazer uma coisa nova, como interpretar um gay perdidamente apaixonado.

Rodrigo Santoro: Foi uma grande experiência poder trabalhar com Jim, que é um astro muito talentoso. Ele gosta de improvisar no set. Muito mesmo. Não que ele alterasse as falas originais do roteiro, mas tentava quase sempre reinventar a forma como a cena era feita.

Carrey foi a primeira escolha para interpretar Steven Russel?

Glenn Ficarra: Foi sim. Por incrível que pareça, fazer com que ele topasse estrelar o filme foi a etapa mais fácil de toda a construção do projeto.

Os produtores americanos não se interessaram por uma história de amor gay?

John Requa: Não se interessaram… Eles chegaram a perguntar, “mas esse Phillip Morris é uma mulher ou um homem?” (risos)

Glenn Ficarra: A história de um relacionamento gay soa bem para um filme independente, não para um blockbuster.

John Requa: Infelizmente, a sociedade americana ainda é muito moralista e homofóbica. Agora as coisas estão começando a melhorar e mudar. Lentamente, é claro.

Como foi o trabalho com Ewan McGregor?

John Requa: Um excelente ator! Que em duas, três tomadas, já conseguia um resultado impressionante. De certa forma, seu personagem é mais complexo que o personagem de Carrey, mais sutil. Porque ele é vítima de sua situação, mas também um personagem autodestrutivo.

Glen Ficarra: Muito boa a experiência de trabalhar com ele, assim como com Rodrigo…

Rodrigo Santoro: Eu que o diga! Construímos uma amizade além do set de filmagens. Esse filme foi feito na raça. Esses dois abriram mão de seus cachês para que o filme pudesse acontecer. John e Glenn adoram viver bem, beber bons vinhos¸ são ótimos cozinheiros também…

Como vocês conheceram o trabalho de Santoro?

John Requa: Gostamos de seu trabalho com travesti em “Carandiru”, depois o vimos em “Cinturão Vermelho”, do David Mamet. Eu liguei para David e perguntei se Rodrigo seria capaz de passar do drama para a comédia, e ele disse “Vocês tem que contratá-lo, é quem vocês estão procurando”. Rodrigo entendeu muito bem seu personagem, que num primeiro momento é simplesmente um namorado bonitão, depois um homem enfermo e apaixonado…

Rodrigo Santoro: Perdi muito peso para representar quando meu personagem (Jimmy) está nas últimas. Um regime muito rigoroso, que deixou muita gente preocupada. Mas ocorreu tudo bem. No fundo, esse foi o motivo principal para decidir ficar com o papel… Entender o sofrimento de Jimmy. Em “Carandiru” interpretava um travesti (Lady Di) que alterava seu corpo, ou seja, era algo completamente diferente. Não acho que estou me repetindo, nem correndo o risco de ficar estigmatizado como um ator que só interpreta homossexuais…

Você trabalhou com um preparador de elenco dessa vez?

Rodrigo Santoro: Não inteiramente. Sérgio Penna trabalha comigo desde “O Bicho de Sete Cabeças”, mas dessa vez não fizemos um trabalho muito intenso, não. Passamos um dia juntos. Há ainda certa polêmica na utilização de preparadores de elenco no cinema brasileiro, mas isso é completamente normal lá fora, principalmente nos Estados Unidos, onde até grandes estrelas possuem um preparador ao lado deles o tempo todo.


O mais interessante em “O Golpista do Ano” é que se trata de uma comédia sobre um relacionamento gay e não mais um drama à moda de “Filadélfia”.

John Requa: Exatamente. Queríamos mostrar um casal gay que passa por problemas de relacionamento como qualquer casal heterossexual. Esse é um triunfo do filme, Muitos dos espectadores gays gostam do filme justamente por isso… Um deles chegou a me dizer “Obrigado por nos fazer rir”. Está na hora de começarmos a rir com filmes sobre o tema, e não só ficar fazendo dramas para mostrar “Ah, como é difícil ser gay hoje em dia”.

Trailler do Filme:

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